domingo, julho 03, 2005

ERRO CONTÍNUO DE PARALAXE

Parto do pressuposto físico, a história dos dois corpos, mesmo espaço, tangibilidade, sabe? Das coisas que existem e disputam espaço acredito ser uma das que menos compete com regular afinco e entusiasmo. Mas também tenho uma certa noção da virtualidade entre o que penso e o que são as coisas, se é que são em algum lugar. Nesse momento estou acordando, portanto me é completamente real e palpável que minha cabeça e a almofada sejam praticamente a mesma coisa. A luz entra por pequenas frestas horizontais que atingem o topo da parede e se movimentam quando os carros passam. Claro que não vejo nada disso. Meus olhos ainda estão fechados. Mas como insetos acasalando, os pensamentos que pacientemente mancomunavam durante a noite, mal contendo sua aflição, sobem impossível de serem freiados, como vômito. Tudo bem. As luzes e eu agora somos alguma coisa porque apresentamo-nos nessa manhã.

Dá pra sentir um cheiro bom. Não é o dela. É mais forte. Mesmo porque ela não está aqui agora. Mas é de praxe que ela deixe seu cheiro pra cuidar de mim. Algumas vezes acredito que nada tem a ver com amor, cuidado, essas coisas de filme, e tem a ver, sim, com dominação, como os cães fazem com todos os noventa graus que encontram. O cheiro parece comida, mas é só cebola frita. Também sou mais almoço que café. Ela tem um sorriso bonito.

Ela não me ama. Basicamente. Mas ela gosta de pensar que sim. Eu gosto de pensar que não. Porque é óbvio. Finjo que não percebo os quilômetros em seus olhos enquanto
conversamos.

Ela chega nesse momento. Sua calça de moleton. O nosso ritual matinal. Eu dechavo. Ela fuma um cigarro, sempre com o pulso quebrado pernas cruzadas e me olha com pálpebras rebaixadas. Como se estudasse os buracos em meu rosto e pêlos fora do lugar, mas ainda assim, como só ela consegue, apaixonadamente. E conversamos sobre naves e sons, coisas assim.

está na hora de irmos? Você nem se vestiu, vai se atrasar
não vou agora, ainda quero me masturbar
não dá tempo. Você tem que ir pra loja
essa porra de loja

Sou adepto da masturbação. A masturbação pra mim diferente do sexo deve ser preservada para um momento especial. O acúmulo de esperma no organismo pode causar alguns sintomas como irritação, ansiedade, mas sempre acreditei na longa relação entre dor e prazer. E por isso, secretamente torço o pé de forma estranha ao gozar, isso, claro, quando estou transando com outra pessoa. A masturbação pra mim é um momento muito específico de prazer egoísta, aqui imagino o que eu quiser, aqui fico o tempo que quiser, gozo no buraco que quiser de quem eu escolher.

Minhas escolhas, porém, limitam-se a imagens que eu tenha capturado, como um balançar de seios no ônibus ou uma atitude machona, como a do meu vizinho, separando uma briga de seus cachorros, no caso, dois pastores alemães. E sou um adepto também da prática de gozar dentro.

Nos beijamos na portaria do prédio bom dia você também. Poderia ter dito me ligue mais tarde, mas não, não sou mais assim. Hoje vou no cinema sozinho. Prefiro não saber que filme. Nem resenhas, prefiro surpresa.

A garota no ponto de ônibus parece modelo, porém suas roupas denunciam que ela não mora no Centro. É fácil sacar, é o seu segundo e ainda são nove da manhã. Mais uma que está sempre na obrigação de morrer. Uma daqueles que mesmo com o sinal fechado para os carros atravessa correndo como na igreja quando pedem perdão. Ela se veste como um genérico de atriz de novela e me olha sem parar. Por um momento penso se ela vai tirar sua vagina da bolsa quando deixa a mão escorregar maliciosamente para dentro. Mas o que sai é uma revista. Atrás minha foto numa propaganda qualquer de algum produto que nunca consumi, não somente por isso, mas que tem preço além do meu custo.

Ela folheia a revista e me olha ocasionalmente. Eu perco o interesse. Meu rosto acena para mim mesmo segurando uma garrafa de biotônico. Não consigo parar de pensar naquela canção que não terminei com meu violão de madrugada, e que já faz duas semanas, e desde então não consegui sentar pra terminar ela e acho que já esqueci um pouco o ritmo.

E falando em espaço, anoto no meu caderno pra não esquecer, como uma prece que pego pra olhar de minuto em minuto O ônibus é o espaço entre a vida real e a vida real. É quando não estou em casa e não estou no trabalho ou num lugar qualquer. É quando nada termina realmente, histórias incompletas. Uma quarta dimensão onde pensamos apenas e esperamos. E a foto que sumiu da identidade dela tem traços que já se apagaram, tantas as marcas de dedo sobre.

1 Comments:

Blogger Tiago said...

Belo texto e imagens. E, claro, excelente blog. Vou dar mais uma olhada por aqui. Abraço.

4:41 PM  

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